quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Iguais, mas nem tanto (+16)


Passos apertados de Adália! O salto, relativamente alto, mas largo, estalava nas calçadas esburacadas das ruas do centro. Seu coração começava a sobressaltar dentro de seu peito, dando um tom róseo às suas bochechas e colo, generosamente exposto por um decote. Não que seu decote fosse impróprio para o ambiente de trabalho, mas seus seios é que eram completamente impróprios ao decoro de qualquer filho de Deus. Suas pernas cobertas por um saia de tecido grosso e preto eram cada vez mais impressas com o ritmo apressado da música que tocava em seu mp3 player, era alguma coisa como Rihanna ou Lady Gaga, de qual quer jeito ela não se lembraria. Ainda nas suas pernas, as passadas apertadas a fazia sentir uma ponta de raiva de si mesma, pois sentia as coxas grossas roçaram uma na outra, ela se culpava por ter comido todo o resto (metade do pote) de sorvete de flocos. Isso sim fazia com que suas coxas ficassem se esbarrando e seu quadril rebolante enquanto ela caminhava. Seu cabelo preto sacolejava do vento, as vezes grudando em seu rosto, já cingido pelo suor.

Em outro ponto, em alguma calçada igualmente esburacada, ou até pior, pela falta de pedras-portuguesas, Inês torcia o tornozelo quando seu salto finíssimo e alto do scarpin “rosa-chiclete-divino” vacilou em uma falta das pedras do piso. Meia dúzia de palavras de baixo calão veio a sua mente, ela chegou a deixar que alguns tomassem forma em sua boca, mas logo ajeitou os óculos de armação de tartaruga que comprou em um feira vintage imperdível e se pôs a caminhar. Os cabelos curtos, que deixavam a nuca, e a tatuagem do signo de peixes, a mostra já não apresentava mais o brilho que tinham de manha, quando ela tinha acabado de fazer a maldita escova, da qual ela ainda era escrava, mas que havia jurado que iria ganhar alforria, mais-dia-menos-dia. As unhas longas e bem cuidadas, pintadas com um azul escuro, que mais parecia roxo, brilhavam a luz do Sol. Os passos iam se tornam mais firmes a medida que ela se emputecia com os tropeços pelo caminho e com seu cabelo. Em conseqüência das pisadas firmes, seu “derriere” de brasileira, em contrate com seu pequenos seios, saltava freneticamente na calça social coladíssima em seu corpo, chamando a atenção de alguns trabalhadores que tratavam de erguer uma pequena edificação em alguma esquina suja do centro. Sim, é bem verdade que isso massageava o ego, mas ela não podia se dar ao desfrute de deixar isso transparecer.

Se fosse ensaiado não daria tão certo. Os dois namorados já estavam na frente do restaurante a algum tempo, logicamente por trabalharem juntos, conversavam amenidades e por vezes riam da falta de pontualidade de suas namoradas. Adália e Inês apareceram de lados opostos da calçada e chegaram juntas até onde seus respectivos pares estavam. Cada uma tratou de beijar o seu, dizer saudades, carinhos e demais melações. Após as demonstrações públicas de afeto, trataram de falar brevemente cada um com o par posto e trocaram três beijos falsos entre sim, quase sem tocar os rostos. Inês e seu acompanhante entraram primeiro, logo seguidos por Adália, abraçada ao seu respectivo. Ambas diziam aos pés dos ouvidos dos seus meninos o quanto achavam “a namorada do seu amigo sebosa e antipática!” E sempre recebiam em troca “ele é meu grande amigo de tempos, por favor, trate-a bem! Por mim, amor!” Seguido de um selinho ou de uma piscada de olhos.

Assim, seguiram conversas chatas e tediosas. Um caldo de legumes de entrada, seguida por uma belíssima “Cesar Salad”, acompanhada de água com gás e refrigerante de limão para todos, já que não podiam beber no horário de serviço. Sobremesa chegando e Inês se levantou sob o pretexto de precisar ir ao banheiro “se ajeitar”. Seu namorado abriu um largo sorriso e assentiu com a cabeça e um aceno de mão. O de Adália apertou levemente o braço dela, próximo ao se cotovelo, e pediu que acompanhasse a namorada do amigo ao banheiro, afinal “vocês são meninas, e meninas sempre vão ao banheiro e fazem essas coisas de meninas juntas!” “Vai lá, amor!”

Um touro com os colhões apertados teria sido mais amigável, uma bufada e um sorriso amarelo foram a única resposta ao pedido e a piada do rapaz.

Aquele era um restaurante antigo, tradicional do centro, conservava uma arquitetura antiga, tudo muito amplo e espaçoso. Uma higiene impecável era cobrada e assim as serventes o faziam.

Olhos ansiosos vasculhavam o lugar por uma oportunidade. Num gesto habilidoso e rápido Inês se pôs dentro de uma das cabines do banheiro e com força e vontade, agarrou o braço alvíssimo de Adália e a puxou para dentro. O trinco deslizou suave para dentro de seu leito. Os rostos colados, face a face, de olhos cerrados, deixavam escapar um sorriso malicioso, sentindo de leve a respiração uma da outra, e confessavam o quanto aquele teatro as excitava. Como num ritual, o sorriso diminuiu junto com a respiração, e as bocas se contraíram, formando um pequeno bico com os lábios, que se tocaram, de forma tão leve e efêmera que poderia ter sido considerado como se não houvesse acontecido. Mas o gesto se repetiu, de novo e de novo, cada vez mais forte, com mais pressão! Pressão suficiente para fazer com que os lábios se abrissem e ficassem mais relaxados. Logo os lábios de Adália e Inês deslizavam suaves um sobre o outro, molhados e quentes. Adália se relaxou toda nos braços de Inês, tanto que sua língua escapou inteira para dentro da boca que a beijava. Nunca uma língua foi sugada, lambia e provada com tanta sofreguidão e vontade. Era como se aquilo fosse o mais doce dos doces, como se fosse uma iguaria rara a ser deliciada. Mas essa iguaria deveria ser compartilhada. Adália abriu os olhos, se pôs ereta, ficou com as pernas separadas, com força e doçura, agarrou os poucos cabelos da parte de trás da cabeça de Inês e os puxou para trás. Isso fez com que ela soltasse um gemido de leve, projetasse o quadril para frente, roçando no de sua cúmplice e abrisse sua boca involuntariamente. Ao ver isso, Adália saltou sobre sua boca, com uma fome de peregrino do deserto e sorveu com lascívia e tesão toda a saliva que encontrou, puxou a língua de Inês junto com seu lábio e os mordeu com um pouco de força, o suficiente para doer e dar prazer ao mesmo tempo. Enquanto era dominada, Inês deslizava suas mãos pelo corpo da amiga, sentia todas as suas formas, media cada espaço, apertava, beliscava e fazia questão de cravar as unhas naquela carne deliciosamente macia.

Ah aquelas mão, como mãos tão pequenas e delicadas conseguiam fazer tanta pressão sobre o corpo de Adália, que estremecia a cada toque, a cada aperto. Como aquelas mãos conseguiam encontrar reentrâncias e espaços antes intocados de sua anatomia? Como é que alguém explica que ter a língua e os lábios mordidos por uma louca ensandecida, quase a ponto de sangrarem, é capaz de fazer com que seu sexo se molhe e contraria a cada sensação de dor e submissão?

Roupas são apenas um mero detalhe a ser contornado, nada que não possa ser abaixado, levantado, posto de lado, aberto, puxado, alargado, espremido ou, simplesmente, ser ignorado. A nudez parcial é muito mais tentadora e despudorada do que a nudez completa que apenas choca e revela mais do que deveria. A parcialidade guarda em si os segredos e as defesas inerentes as vestimentas cuidadosamente escolhidas.

Palavras não mais existiam, apenas a respiração ofegante e foda-se quem estiver de fora, ouvindo. Como é delicioso o gosto do prazer alheio descendo por sua boca, fazendo que com que suas narinas fiquem inebriadas por todo aquele aroma de excitação. Tudo desliza mais fácil! Dedos, língua e clitóris se confundem. Suavemente a ponta da língua toca os pequenos lábios, quase um toque mágico para que eles se abram junto com as pernas que já não podem mais se abrir, por falta de espaço no local ou nas roupas em que estão, em parte, vestidas. Finalmente o clitóris é revelado, quase como um prêmio, uma jóia. Essa sim, a iguaria, o doce dos deuses a ser deliciado para poder deliciar sua dona. Primeiro apenas a respiração do nariz pode tocá-lo, para depois, de forma ansiosa e contida a língua. Um primeiro contato, que gera uma onda de choque no corpo de quem recebe e reverbera no corpo de quem dá. Esse é o sinal, aos poucos a língua se torna mais íntima e logo os lábios são convidados a participar. Lábios de uma boca tocam outros lábios, esses mais guardados e reclusos. O beijo é intenso e trocado com vitalidade. É sugado e pressionado, mas ainda incompleto. Ainda falta um participante da festa, alguém que é curioso e intrépido. Lentamente o beijo se desenrola, língua e clitóris, lábios e lábios, clitóris e lábios, se tocam, se roçam e intensificam o amor, o calor, o ardor, a chama, a dor, o prazer, a vontade de se apertar, de se espremer, de tornam tudo mais molhado e perfumado. As mãos são incessantes, brincam e desafiam, apertam, beliscam, arranham e até batem. Descem da bunda deliciosa e brincam de alisar e beliscas de leve por entre as coxas, cada vez mais para cima, cada vez mais próximas da festa, do beijo. Timidamente, ainda na entrada, um dedo toca a entrada, tão molhada, que ele poderia ter deslizado para dentro num único movimento. Mas não, nada de pressa, milímetro por milímetro ele conquista seu avanço para o interior dela, aos poucos a entrega se completa, em questão de segundos o dedo bem treinado encontra o que procurava, a pequena parte levemente enrugada, sensível ao extremo, conectada a todo o corpo de sua dona. Cada toque, cada movimento, cada ação faz com que seu corpo responda de uma forma absurdamente amplificada. O beijo, a língua, o clitóris, os lábios, o toque, o dedo, pele, cheiro, gosto, tudo, tudo! Em uma explosão de contrações musculares, em todo o corpo, simultaneamente e de forma repetida, nasciam de dentro de seu sexo, percorriam cada espaço de seu abdômen, peito, pernas braços, cabeça e retornavam para seus meios e assim permaneceram, até que se tornaram cada vez mais espaçados e fracos, até sumirem. Com o sumiço veio o relaxamento, as pernas bambas, o êxtase. A satisfação, ainda que momentânea, veio, mas logo dará lugar a vontade, ao anseio de querer ter mais!

Quem deu? Quem recebeu? O que importa? Importa que ambas ganharam, sempre!

Retoques e acertos a parte, retornam para a mesa sob os protestos de demora, que logo são cortados sob a explicação de um mal estar súbito. Elas ainda mantêm as caras meio amarradas uma para a outra. O teatro continua, a pequena farsa, e é isso que as mantém juntas. O amor, a farsa, o perigo, o inusitado, mas, acima de tudo, a admiração pelas loucuras e prazeres alheio.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Serpentes no céu

O Leão sentado em seu trono, coroado com sua juba negra em forma de coroa ameaçadora, cercado por suas concubinas leoas-caçadoras, ostenta a opulência da majestade herdada pela natureza e não conquistada por seus méritos. Suas senhoras cruzam com seus súditos enquanto o rei está ocupado cuidando as fêmeas principais. Os acasalamentos acontecem ao mesmo tempo, os filhotes nascem ao mesmo tempo! O rei quer matar os filhotes do pecado, mas não sabe diferenciar dos seus. Os pequenos bastardos se misturam aos herdeiros reais, os matam e o trono é tomado por alguém sem sangue nobre e assim segue sucessão da “família” na corte.

Os bobos-da-corte, com seus dentes arreganhados, risonhos compulsivos, adornados pela loucura e pela feição assustadoramente sorridente. As Hienas, carniceiras pelo julgamento popular, matadoras por natureza, espreitam sempre nas sombras, na esperança de que algum incauto cai nas suas graças de morte ou que o rei bastardo as chame para diverti-lo enquanto ele rouba sua comida conseguida as duras penas. Seus pescoços robustos em contraste com seus corpos atarracados conferem a elas um ar desengonçado que, mais uma vez, não faz jus à sua crueldade e potencial assassino. Um dia o rei será o jantar, um dia...

Ah, o que seria do mundo sem os pequenos salteadores da estrada, organizados e furtivos, chamados de Chacais? Solitários são fracos, incapazes, magros, feios e não oferecem muitos perigos! Mas juntos, em bandos, como sempre vivem, são animais perigosos e vis. O grupo parece adquirir uma consciência coletiva, cujo único objetivo é matar e comer. O medo é o sentimento que impera em seus corações, mas é justamente o que os mantém vivos, fortes e unidos. Não desprezem nada, assim como dividem tudo. Desde a caça de um pequeno lagarto até mesmo um grande cervo, tudo é comido, tudo é dividido. Tudo é regido pelo medo, todos são mantidos vivos e sempre unidos.

Restos podres de carne e gordura ressecada sob o Sol impiedoso. O cheiro de podridão imunda inunda o ar e a ideia de ingerir qualquer porção disso faz com que qualquer um regurgite tudo que há em seu estômago, mas os restos mortais deixados para trás, seja por satisfação, seja por necessidade, é um banquete de iguarias finas sem igual para os Abutres. Capazes de comer uma presa ainda viva por uma ferida aberta enquanto ainda agoniza ou já morta a vários dias, dominada por vermes e moscas, são eles que, de uma forma controversa mantém a higiene do reino. Comendo a podridão, sobrevivendo de restos e rejeitos imundos, se nutrem do que mataria qualquer outro.

Apesar de todos acima serem totalmente diferente em suas posições e ações, há algo em comum, são os agricultores responsáveis por fazer a colheita diária no pasto de carne. Neste pasto farto brota uma multidão inumerável de Gnus. Estas bestas de carne suculenta, sustentada por patas fortes e defendidas por chifres afiados, são os responsáveis por prover quase toda a carne responsável por sustentar os habitantes do reino. A colheita dos agricultores da carne é impiedosa e constante. Faz sangrar diariamente o bando, afasta os filhotes fracos e os mais velhos, mas é isso que faz com que os campos repletos de carne sejam cada vez melhores, pois os piores são sempre mortos. A dor da perda de um companheiro é grande, mas antes ele estar morto e devorado do que eu.

Acima disto tudo há Serpentes no céu. Elas costuram todas as cenas decadentes, cenas clichês, anormais e incertas. Cenas cotidianas, que se completam e se afastam. As serpentes do céu usam uma linha invisível de uma força sem noção, que não deixa as cenas se afastarem, faz com que o rei, o bobo, o salteador, o necrófago e o pasto sejam um só. Uma só cabeça, um só ser que se nutre, cresce e se consome. Nutre-se e se consome, num ciclo vicioso, em um ciclo vital, retroalimentado!

Todos esses elementos convivem todos os dias, desde sempre, desde que surgiu a sua falsa consciência, todas as faces de um mesmo indivíduo, todos construindo e consumindo o mesmo ser. Todas as expressões. E as serpentes nada mais são do que as mudanças de humor, a ponte entre a consciência e o sonho, as fantasias e a realidade. As serpentes no meu céu, as minhas lembranças, meus pensamentos, minha realidade, meu eu.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Tão frágil e tão forte

Ter uma vida inteira de espera,
Passar cada segundo esperando uma coisa que não se sabe ao certo o que é!

Ansiar pelo desconhecido, desejar o que nunca se soube!

Querer correr de olhos fechados em um lugar sem luz, forçar a ir pra frente em um terreno desconhecido, vidros e laminas no chão que tocam um pé descalço, mas muita vontade de seguir!

A dor existe, é claro, é um fato! Mas a delicia da caminhada é inigualável, nem sei por que, mas queria saber! Talvez a vontade de alcançar o que sempre se sentiu falta, mas não se sabe o que é, motive a seguir!

A fragilidade da espera é rasgada quando se encontra o que se anseia, mas o medo torna os laços de união do desejo tão tênues que podem ser desfeitos pelo bater de asas de uma borboleta, mas ao mesmo tempo a intensidade da descoberta e o desejo de continuidade tornam tudo tão mais forte, que se faz a vontade de nunca terminar.

Tão frágil e tão forte ao mesmo tempo! O amar é assim, a tormenta que desatina enquanto se espera, enquanto se aguarda por tudo aquilo, enquanto sente falta de algo que não foi conhecido antes, mas a força de saber como é, de saber o que é faz seguir em frente. E, quando se encontra, o medo da perda, o medo da fragilidade é tão intenso que atormenta o pensamento e faz querer tornar tudo eterno. Faz quere ser mais forte para tornar tudo ais forte ao redor!

Mais forte e tão frágil, forte e frágil... O eterno que pode acabar na passagem de um segundo!